Perspectiva Adotiva

Qual é a primeira imagem que vem à mente quando se pensa em adoção? De modo geral, as palavras “família”, “abrigo” e “preconceito” são as que mais aparecem associadas ao tema. Mais que um recorte parental e social, porém, a adoção marca a construção da subjetividade e identidade de quem precisa migrar de um contexto para outro: os adotivos.
Experienciar a adoção é mais que tornar-se filho. Ser adotado é um processo a longo prazo que impacta diversas áreas da vida, indo além dos limites familiares. Pautar o debate a partir da perspectiva adotiva é ouvir quem viveu essa realidade e entender como esses reflexos se dão na construção de vínculos de modo geral, na existência ou não de registros sobre a própria história, bem como sobre a liberdade de poder narrar a própria condição sem esbarrar em tabus, preconceitos e censuras, validando que o direito à identidade é um Direito Humano estabelecido na Convenção sobre os direitos da Criança e Convenção Relativa à Proteção da Criança e à Compensação em Matéria de Adoção Internacional, e o Direito às Origens encontra-se previsto na legislação brasileira no artigo 48 do Estatuto da Criança e do Adolescente. Além disso, envolve também debates sobre relações inter-raciais, famílias homoafetivas, representatividade, conexão com o próprio corpo e os impactos da falta de espelhamento genético e histórico médico. E não, nada disso se confunde com ingratidão.

Por isso, uma pergunta relativamente tão simples quanto “Qual é a minha história?” pode ganhar contornos muito mais complexos quando se trata de pessoas adotivas. Essa é uma história que envolve o tempo em serviços de acolhimento e os impactos dessa vivência na socialização nas escolas, bem como o quanto as instituições de ensino estão preparadas para acolher a diversidade de experiências, as etapas de adaptação com a nova família, o luto envolvido nesse processo de destituição do poder familiar e adoção, além da influência da separação de irmãos quando isso ocorre. O reencontro com as origens biológicas, a falta de referências sobre perspectiva adotiva, as “piadas” sobre adotivos e o modo como o tema é retratado na mídia são outros recortes que envolvem a necessidade de uma sociedade letrada sobre adoção.
Falar sobre adoção, portanto, é mais que adaptação em uma nova família: ser adotado constitui uma maneira particular de biografia, diferente da vivida pelos exclusivamente biológicos. Ter profissionais preparados para acolher essa vivência a longo prazo é essencial e, inclusive, é uma demanda do movimento adotivo que passa a ser fortalecido no Brasil com a fundação da Associação Brasileira de Pessoas Adotadas em 2021.
Apoiar pessoas adotadas a se apropriarem de sua história e serem ouvidos, desde a infância até a idade adulta, por profissionais qualificados para acolher as particularidades dessa existência é parte fundamental da trajetória Ladrilhar.
